quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Um pequeno olhar sobre literatura: imagens, percepção e representação

Inauguro esse espaço sem que ainda possa ter um leitor imediato a quem eu me destine. Falo de mim, inicialmente, a mim próprio. Essa ironia, que é própria de se produzir algo conectado, necessariamente, a uma rede de pessoas no mundo inteiro através da internet, me impõe que eu comece falando aos ventos, ou a mim mesmo. Portanto, os destinatários serão algo da contingência, "escrevo no escuro"; ainda que , senão toda, a maioria das produções de ideias que vise um interlocutor, se comunica, antes de mais nada, com ele mesmo. O homem se comunica com os outros, à medida que ele sente a necessidade de se comunicar, e é essa necessidade que importa; portanto, o que realmente parece importar, é a necessidade, e não tanto o que ele quer comunicar. Ademais, quando importam os outros? Que "outros"? Enfim, continuemos.

Após essa passagem inicial, entro no conteúdo do título: "Um pequeno olhar sobre literatura, imagens, percepção e representação".

Eu, pessoalmente, não lia obras de literatura há meses. Em parte sentia falta, e em partes não dedicava-me a tirar algum livro literário da estante para lê-lo. Não sei exatamente se gosto, ou se quero gostar; se o hábito da leitura é parte de um gosto refinado que eu aprecio mas não desenvolvi muito até hoje, ou se, pelo contrário, trato a leitura como uma meta, como uma necessidade. Ainda assim, uma (boa) literatura me oferece o prazer de mergulhar na trama da estória, e desenvolver a imaginação. Quando esse efeito ocorre, desnecessário especular o motivo da leitura.

Ainda assim, a vida de quem trabalha e estuda, em um grande centro urbano em um país como o Brasil, não constitui favorecimento a esse hábito cultural. Pelo contrário, o mundo das mercadorias e do prazer fácil ao alcance de um clique (seja na tela do computador, ou da máquina de um cartão de crédito) é que impera em nossas vidas - e não apenas nos centros urbanos. Penso que, por isso mesmo, procuro cultuar certos hábitos, como ignorar o tempo cronológico (do "tic tac" que bate e marca as horas de trabalhar e estudar e trabalhar) e poder mergulhar na temporalidade da literatura, das personagens, na geografia do enredo, do drama psicológica da trama.

Nas últimas semanas, li duas obras literárias: "A noite do Professor" de Jean Pierre Gattégno, e  "S. Bernardo" de Graciliano Ramos. A primeira, uma literatura francesa atual (contemporânea), e a segunda, literatura brasileira moderna. As duas obras não se assemelham tanto ao estilo, à temática, ou outros fatores. Mas ambas são obras que, ao envolver o leitor, - como toda boa obra literária - permeiam a relação entre leitor e obra numa variedade grande de efeitos e processos afetivos, históricos, culturais, formativos, que evocam certa dimensão de imagens percebidas, e representações como movimento contraditório de captar/perceber o trama da respectiva obra e representações que já temos do mundo, de indivíduos, criando uma simbiose (nem sempre positiva, e sempre desigual).

O autor francês cria uma trama a partir da vida de um professor do magistério parisiense, que herdando do pai um estilo de vida da aristocracia inglesa, e sofrendo as misérias de um professor da rede pública em Paris, se surpreende ao receber um convite de assaltar um banco, feito por uma mãe de um aluno seu. O enredo se desenvolve no dilema de agir diante da situação. Obra que não é um clássico, mas que consegue desenvolver uma história com um enredo envolvente e sem cair na previsibilidade de romances policias.

Já a obra do autor brasileiro, retrata a vida de um homem dos rincões do nordeste, que passa de um simples trabalhador da roça, para um homem de negócios, que ganha a vida com alguma sorte, e muita exploração da vida alheia, dos que trabalham em sua propriedade em troca de comida, um lugar para viver, e algum ordenado (pagamento). Essa obra, um clássico da literatura moderna do Brasil, retrata um drama existencial, com uma profundidade psicológica dos personagens, tendo como pano de fundo o processo histórico no Brasil de 1930: a revolta da política "café com leite", o levante de 1930, e a luta dos comunistas da época, que culminou na famosa "Intentona Comunista".

Ora, mas o que estas obram possuem de semelhante? O traço semelhante das duas obras lidas é a narrativa. O narrador da história é exatamente o personagem principal; portanto, do ponto de vista da trama, a estória é contada pela 1a pessoa do singular. O porta voz de toda trama é contada e observada pelo personagem principal, sob o olhar determinado, no caso da obra francesa, do professor parisiense, e na obra brasileira, sob o olhar de Paulo Honório, o homem da roça, personagem principal da obra S. Bernardo.

Com essa perspectiva literária, de que a obra seja descrita/narrada pela primeira pessoa do singular, o personagem principal, já saberemos que o horizonte será o da personagem, sob sua ótica. Isso pode parecer limitador se esperamos ter o olhar totalizante, de ver tudo que acontece em diversos espaços (como um olhar de um Deus que olharia o mundo inteiro, de uma só vez), como estamos acostumados a vermos no cinema, o olhar que está em todos lugares, e percebe diversos acontecimentos justapostos.

Ora, mas seria limitador, realmente, não ter esse "olhar total" e vermos - seja em uma obra literária em um livro ou num filme cinematográfico - a história contada a partir da ótica de um autor, no caso, o autor-narrador, personagem principal, que nos compartilha seu temperamento, desejos, medos e angústias?! Penso que a compensação desse modo de narrativa seja exatamente uma certa incursão no drama psicológico da personagem, na qual vivenciamos o conflito singular da mesma, que vê o mundo (e nos mostra) à sua maneira. E também, tal modo de "visão" parece-me ser mais condizente com a forma cotidiana que enxergamos o mundo, através de nossos olhares e percepções singulares.

Sendo assim, este tipo de trama narrativa-dramática nos envolve com a experiência de um outro ser (que sempre se situa num "pêndulo" entre o real e o imaginário) que percebe o mundo de um jeito determinado, e nos narra à sua maneira o mundo como ele foi percebido. E assim, somos mais que convidados - muito mais, intimados - a penetrar nessa sala escura íntima que é vivenciar, por momentos, o que é essa pessoa, nessa circunstância, e julgar - mas não externamente, mas um misto de um julgamento externo e um incursão no drama interior da personagem - suas ações e reações. 

Portanto, as cenas que nos são descritas, como imagens, não podem ser percebidas mais como um mero quadro exposto estaticamente. Estamos, a cada página que passa, mergulhando nesse drama do personagem-narrador, que ora nos aproximamos e nos identificamos, ora nos afastamos, repudiando-o. É uma forma, segundo penso, das mais interessantes para uma incursão nas veredas da existência humana.

Agora, ainda que nos envolva sensivelmente na estória, aproximando-nos da forma que o autor pretendo que seja percebido os acontecimentos e as sensações próprias do enredo dramático, o processo de representações sobre qualquer assunto da vida cria uma simbiose entre leitor e autor, mas que nem sempre é igual, à medida que sujeitos possuem representações distintas, e nunca um mesmo texto evoca as mesmas sensações, representações, significados. Contudo, sempre há uma troca de sentido entre leitor e a obra (ou o autor/obra e o leitor), e essa troca, ouso dizer, é sempre uma incompletude mútua de significado, da própria explicação dos objetivos da produção de uma obra literária e do objetivo e resultado da leitura da mesma.




Um comentário:

  1. Amor, que texto bacana.

    Primeiro você escreve muito bem. Tem uma linguagem menos objetiva, mas ainda sim clara e concisa. Desculpa a demora para ler. Foi um tempo que poderia ter sido melhor aproveitado antes.

    Acho que essa cobrança por sempre ler mais não é o caminho saudável da leitura, que deve se por prazer e curiosidade. Mas as vezes, mesmo nos imputando uma tarefa saem coisas boas né? E creio que pelo envolvimento com a escrita desse texto as leituras foram boas.

    Acho que é isso. Não sei comentar tão belo quanto você. Mas poderia tirar uma foto para expressar-me melhor. Porque é a linguagem na onde me sinto mais confortável (a visual). <3

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