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domingo, 12 de outubro de 2014

experiência do problema: o dilema do feminino (ou da mulher) e as cenas de Jean-Luc Godard

Angela, uma mulher como tantas outras, caminha pela avenida, e ao se deparar com imensa coisas estranhas à sua volta, nas ruas, nas paredes, nas pessoas à sua volta, nas prateleiras que a cercam, ela, por um breve momento não se reconhece, e se faz perguntas aparentemente absurdas: quem sou, onde estou, o que são essas coisas? e após esse momento, um frio cortante a tira dessa vertigem, e diz: "essas panelas na prateleira, que belas  e me ajudariam muito em casa... e nossa, já são cinco horas...


Essa imagem, perigosamente utilizada, evoca diversas sensações: desde a estranheza, o repúdio, o aprisionamento da mulher na nossa sociedade. Mas ora, o que foi essa vertigem, e que destino essa mulher trilharia após constatar, simplesmente, que já são cinco horas?!


Talvez deveríamos começar retratando o dilema retratado acima, através de expressões como "o feminismo", "a questão da mulher" ou alguma outra expressão equivalente, mas a coisa já poderia se apresentar como problema. Parece-me que socialmente o termo generalizado de homem e mulheres possuem caminhos peculiares. Quando empregado no homem, parece que as coisas estão ok. Agora, quando elas são destinadas à mulher, parece haver ou algum mal-entendido, ou uma ofensa. Perguntamo-nos: a generalização do termo mulher tira a singularidade de cada mulher, e o termo homem, quando empregado, não evoca esse emprego geral como problema? Será que aqui reinaria a moralidade pura e simplesmente? Não é provável. Afinal a generalização do indivíduo remonta fundamentalmente a algo histórico. O nosso mundo, o mundo burguês,  trata os homens particulares como objetos (de trabalho, de lucro, via de regra) mas quando se destina a falar do homem, esse homem particular some, evapora-se. No lugar, entra-se em cena o ideal de homem: o homem abstrato, um homem que só existe na cabeça da burguesia e de alguns ideólogos; em suma, a moral de homem. Assim, a moral funda em valores para que os homens sejam o ideal (burguês) de homem, e não o indivíduo de carne e osso, sentimentos e fúria, de qualidades admiráveis e defeitos desprezíveis.

Ainda sim, a luta que a mulher se lança há tempos e mais tempos diante contra a menoridade que o machismo impôs, seja uma saída, na qual, talvez, a generalização não caiba bem. E talvez essa anti-generalização seja, ela própria, uma saída muito inteligente contra o raciocínio típico do homem padronizado, e que hoje, tem dificuldades de tudo que não é catalogado, previsível e pré-estipulado. Contra o homem catalogado, contra a vida masculina etiquetada e bem administrada talvez seria o eco que não conseguimos ouvir. "Ora, é só ver como os homens se vestem em locais de trabalho, em igrejas, em festividades solenes: via de regra, é o blazer, a camisa social, branca, preta, azul o bege, e sapato preto ou bege. Esse é o mundo da padronização. O universo masculino, da lógica masculina"

Nesse sentido, vale a pena ler algumas poucas passagens de diversos momentos históricos, em que homens procuraram definir e enquadrar a mulher. Vejamos:

"Multiplicarei teus e miséria em tua gravidez, com dor para lhe dar os filhos e estará sob as leis de teu marido, e ele te dominará." (Gênesis)
 "A mulher é má, cada vez que tiver ocasião, toda mulher pecará." (Buda)
"As mulheres, os escravos e o estrangeiros não são cidadãos." (Péricles)
 " Os melhores adornos de uma mulher são o silêncio e a modéstia. "(Eurípedes)
" A mulher por natureza é inferior ao homem, deve pois obedecer: o escravo não tem vontade, a criança mais incompleta, a mulher tem, mas impotente. " (Aristóteles)
" A mulher deve aprender em silêncio com plena submissão, não consinto que a mulher ensine o marido nem domino o marido, apenas que se mantenha em silêncio " (São Paulo)
 " Uma mulher amavelmente estúpida é uma bendição do céu. " (Voltaire)
"A mulher pode naturalmente receber educação, porém sua mente não é adequada às ciências mais elevadas como a filosofia e algumas artes" (Hegel)
" Sua confusão era tal que começou a pior mentalmente, como uma mulher" (Elias Caneti)
Muitas expressões mostram como "o mundo" retrata a mulher - isto é, o mundo masculino. Elas podem ser vistas como ataques e um insultos, e devidamente o são. Mas se olharmos mais atentamente, podemos perceber como todos esses autores, homens da ciência e da lógica, realizam um desaforo da mulher, no sentido da palavra desaforo que significa algo fora do lugar. Ora, como insultar e desaforar algo que se pode possuir? Portanto, a lógica, que é perversa, diga-se de passagem, revela como uma certa forma desajeitada de capturar a mulher - toda essa riqueza e diversidade que o gênero feminino evoca, hoje, muito melhor e maior que no gênero masculino - foi através do desaforo, do insulto.

Esse algo da mulher que sempre escapa, que não é capturável pela "lógica masculina" foi tragicamente velada nas formas clássicas de opressão; esse "capturar esse algo que escapa" se deu através do insulto, pois aquilo que se insulta é o que cola, que salta em cima. O insulto, portanto, foi a forma histórica em que a mulher foi tratada pelo mundo  do patriarcado, do machismo que se apoia nas formas históricas de opressão (despostismo antigo, escravagismo, feudalismo, capitalismo). Portanto, o insulto se mostra a incapacidade dominante de descobrir outra(s) lógica(s), outra(s) forma(s) de ver, sentir e estar-no-mundo. Assim, o insulto se dá como forma de aprisionar toda uma riqueza muito diversa do que poderíamos chamar, ainda hoje, de feminino/feminina.


Três momentos de luta: as mulheres protagonistas


Diante do cenário em que a humanidade é subjugada economicamente sob o capitalismo, e à mulher, acresce-se à subjugação de classe, a de gênero, temos experiências onde algumas mulheres (e homens lado a lado na luta das mulheres) atuaram como protagonistas. Três momentos bem diferentes divergentes, no século XX mostram um quadro dessas tentativas da mulher se colocar no mundo, a seu modo.

Em meados dos anos 1900, na imensidão da Rússia, vivendo sob o jugo da autocracia dos czares e do império russo, havia uma tradição de lutas revolucionárias (cuja influência se deve aos anarquistas russos e ao partido bolchevique) que, na dinâmica dos conflitos que assolavam à época, tratavam da condição da mulher trabalhadora, isto é, a mulher que levantava como suas necessidades pautas como o como direito à licença por gravidez, creche e educação para seus filhos enquanto ela trabalhasse, diminuição do tempo de trabalho, eliminação das desigualdades e salários entre homens, mulheres, crianças. Isto é, sua luta se pautava pelo papel da mulher, mas sob sua condição de classe.

Lá pelos anos 1940, nos Estados Unidos de América - país que há tempos orgulha-se pela "sua democracia" às custas do monopólio mundial, guerras, extermínios de povos e nações em praticamente todos os continentes do mundo - surgiram grupos feministas a partir de demandas como o direito à igualdade jurídica, direito ao voto, e outras formas de igualar, para a lei, homens e mulheres. Por se tratar de mulheres de origem burguesa, e pequeno-burguesa que tinham como modo de vida o "sonho americano", sua atenção não visava a extirpação da  opressão da mulher em camadas mais profundas; se limitaram à defesa no plano da igualdade jurídica, formal. Além disso, sabemos bem que o feminismo norte-americano trouxe como consequência a negação da compreensão do problema da mulher como um problema histórico, obscureceu a questão da divisão de classes, e trouxe como consequência a busca pela "mudança de costumes", através da crítica às formas de machismo na sociedade.

 Podemos ver que há grandes diferenças em ambos os casos; e é preciso dizer que  a mulher não ter tais igualdades já é sinal de extremo atraso; contudo, é nítido a diferença de temas, interesses e conduta de ambos setores de mulheres que tiveram protagonismo. O primeiro setor teve uma experiência vitoriosa nos primeiros anos da Revolução Russa em 1917, já a segunda, realizou lobby parlamentar e conseguiram certos direitos jurídicos. Esta coloca o marco do problema como um "problema dos costumes", como uma questão cultural, ou educacional; aquela colocou o problema no marco da forma histórica da humanidade se organizar.

Outra experiência de grande interesse eclodiu na França da década de 60-70. Em 1968, nas barricadas de Paris, durante as lutas de um movimento político efervescente, homens e mulheres, essencialmente jovens estudantes das Universidades, travaram lutas pela liberdade sexual de homens e mulheres, inserindo mais um capítulo na trajetória da luta pela libertação da opressão sexual e econômica. Um fato intrigante foi a defesa de que homens e mulheres pudessem dormir em mesmos quartos nas moradias universitárias da França - muito influenciado pelas discussões psicanalíticas. Contudo, sabemos que esse movimento não foi vitorioso nem no plano sexual (gênero), e muito menos no político, haja vista que triunfou a política anti-popular do ditador Charles de Gaulle, que deixou marcas na vida política francesa através do gaullismo.

Em suma, tivemos episódios de luta, belíssimos. Mas que (ainda) não foram vitoriosos. Contudo, o que era uma ação libertadora se transformou em comércio, em mercado de interesse sob o regime capitalista. O capital percebeu que poderia lucrar com tais demandas, esvaziando seu conteúdo radical de libertação, e armazenando apenas o grande contingente produtivo de mulheres como força de trabalho menos valorizada. Hoje, podemos perceber com que força o capitalismo se utiliza das diferenças sexuais e étnicas como ingredientes fecundos na exploração da imensa maioria da humanidade. O Capital  incorporou essas mulheres no mercado de trabalho, o que acarretou em um discurso de vitórias e conquistas da mulher. Ainda que tenha havido mudanças no papel do mulher nos últimos tempos, no fundamental, o que ocorreu foi que a luta contra a opressão da mulher não foi - ainda - plenamente vitoriosa, e nos destroços e na ressaca da luta, o Capital soube lucrar e muito; e produzindo muita ideologia sobre a libertação da mulher, pelo trabalho.

E mesmo no âmibto da "mulher que ganha sua liberdade adentrando o espaço do mercado de trabalho", podemos perceber que, a grosso modo, ela adentra com o estereótipo do masculino: padrões de roupa - a grande quantidade de mulheres bem sucedidas que se vestem na monotonia de blazer e pastinha de executivo unissex; comportamentos valorizados na mulher "que alcança altos postos de trabalho" são exatamente os traços mais repugnantes do "universo masculino" - a atitude de "mandar" nos outros, o gritar como forma de dominação, a grosseria e a forma rude de lidar como manifestações de uma dominação que se assentam sob o medo e a imposição, que historicamente, foram relegadas ao domínio do masculino, onde o machismo historicamente falando assenta suas bases.

Dito isso, isso não quero dizer que mulheres não possam agir assim, nem que tais atitudes são monopólio do mundo dos homens, mas as mulheres adentram esse espaço com os piores aspectos do que podemos chamar de masculino, à medida que se modificam assim, e perdem de vista a destruição desse estado de coisas, sublimam a possibilidade de um mundo fora dessa padronização que mutilam os homens e mulheres que vivem hoje, sob esse pesadelo vivo do machismo. Não derrubam o machismo e iniciam uma nova vida sem patriarcado, nem matriarcado. Pelo contrário, se enquadram no jogo sujo do machismo. E o que é mais cruel: sem perceber, e tendo ares de libertação.


O problema na vida e na representação: um olhar sobre este dilema a partir das lentes de Jean-Luc Godard em seu filme 'Uma mulher é uma mulher"


De cara. sugiro um interessante ensaio sobre Godard e as mulheres, de Amanda Maciel Antunes em: http://lounge.obviousmag.org/dossier/2012/05/as-mulheres-de-godard-uma-critica-da-sociedade-patriarcal.html ; e tomo de empréstimo como ela define o filme a que me refiro.

"Anna Karina - Angela Anna Karina
Filme: Une femme est une femme (Uma Mulher é Uma Mulher)

A musa de Godard, Anna Karina era a personificação de uma espécie de glamour despreocupado, se ela era stripper, uma prostituta, um pivô cantando, dançando em um triângulo amoroso, poeticamente triste, Karina era a alma pós-moderna a mais impetuosa dos conceitos de Godard. Angela (a personagem) quer filhos e vive pressionada entre dois homens, tentando descobrir qual deles ela deve escolher, ao mesmo tempo que descobre o que significa ser uma mulher e um homem, uma excêntrica análise dos sexos. Godard viaja nas dinâmicas de gênero e sugestões indiferentes de um triângulo amoroso."

 A situação que Godard nos apresenta nesse filme é interessante: à medida que a personagem Ângela se reconhece mulher e compreende o que é ser mulher (talvez na diferença do que é ser homem) a partir de seus desejos, seus interesses, e sua forma de viver que não se enquadra na forma que os homens esperam, a personagem manifesta, em alguns momentos esparsos um lampejo de auto-reconhecimento, do ser mulher e de desejar segundo sua própria dinâmica que lhe é própria.

Contudo, através das lentes do cineasta francês, ora Angela é mostrada como o "pólo passivo do patriarcado machista", e momentos em que ele se choca com tais valores, reivindicando seus próprios interesses e vontades. Uma imagem instigante que Godard nos brinde seja exatamente a "cena do lar": de imediato, Angela e Émile nos avisam com todo bom humor, de que irão retratar a farsa de uma família feliz. Após esse recado, Angela, que já percebeu que a refeição "passou do ponto" no forno, faz perguntas e mais perguntas de que tipo de comida Émile gostaria. E aqui, Émile não dá sorte; tudo sai ao contrário do que espera, o que fica instigante o papel que Angela encarna no drama da mulher (que não se enquadra) na sociedade... ou ao menos no que a sociedade tem valorizado; no filme, os dilemas profundos ganham o requinte de bem humoradas sátiras e do encanto do problema, o que torna tudo mais digestivo.

Outro aspecto digno de nota: Angela, personagem principal, é retratada de forma erótica, sexual-sensualizada, e aprofunda a forma predominante que o homem se relaciona com a(s) mulher(es): a dimensão da aparência; revelando valores da mulher como beleza, o erotismo, o carinho, o afeto; em suma, uma mulher que é reconhecida pela sexualidade a ser devorada pelo homem (ou talvez até por outra mulher) à medida que valores como amizade, lealdade, inteligência, destreza e tantos outros valores do tipo são renegados à mulher.

E o que torna interessante é que Godard aborda o conflito, o próprio dilema da mulher que sofre, mas que também reconhece um outro valor para ela, que se auto-reconhece como mulher não mais objeto, mas como sujeito. Esse dilema pleno de conflitos é o fio condutor de todo o filme.

Um fato importante de se ressaltar é que diversos setores que muito justamente levantam as questões de opressão da mulher, nas variadas formas em que esse problema aparece, procuram censurar filmes, livros, músicas que expressem formas machistas de conduta, quando não, às vezes sem muito conhecimento, falam de apologia do machismo. Claro que é uma linha tênue entre a força criadora da arte e o uso da mesma para finalidades políticas e ideológicas; contudo, não há uma regra geral e validada atemporalmente que resolva.

No caso do filme "Uma mulher é uma mulher" do diretor Godard, ele está além de um cinema-panfletário, que apenas buscasse estirpar a conduta machista em seus filmes, buscando a via da não-contradição, de retratar um mundo idealizado -- mas, ironicamente, que não existe na realidade. Portanto, que validade há em censurá-lo, nesse filme, por não ter eliminado a opressão da mulher?

Ora, esse é um erro, pois a resolução do problema se desloca de um problema real na vida para a arena da representação. A questão não tem de ser resolvida artisticamente. Pois não serão obras isentas de machismo que derrubarão o machismo, assim como não serão filmes exaltando os operários e o socialismo que edificarão uma nova sociedade, sem classes. A arte (pode auxiliar e muito, mas)  não substitui as tarefas históricas de libertação.

Exatamente por isso, Godard tem a genialidade de expor o próprio dilema em questão: a mulher que se reconhece nessa situação, e que tem em sua confusão, o processo de tomar consciência desse dilema, que ao se reconhecer, choca-se com os valores pre-estipulados a ela, como uma mulher. E assim, Godard não resolve o problema nas telas, pois não é lá o local da resolução.

Finalizo com uma constatação, que não resolve o problema da opressão da mulher, mas que procura exatamente resolvê-lo: querer resolver o problema na representação da arte pode satisfazer algumas pessoas com valores militantes, mas isso recai num idealismo utópico, como disse a pouco. A sensação de resolve-la dramaticamente é equivocada, pois conforta, através da arte, que o mundo seja o que vê no filme, ou uma válvula de escape, uma forma de sofrer um catarse-tranquilizadora, onde apesar do sofrimento da vida da mulher, ela se sente tranquila ao ver um mundo, mesmo não sendo o seu; e sendo assim, esconde que o local da resolução é a luta política. Portanto, as lentes de Godard nos ofertam uma possibilidade de experienciar o dilema que todas e todos nós podemos nos envolver, a encontrar as saídas que estão em nossas mãos.